“Gigantes Adormecidos”, de Sylvain Neuvel

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Aos onze anos de idade, Rose Franklin passeava de bicicleta em sua vizinhança, até ser engolida por uma cratera no chão. Quando os bombeiros a encontraram, ela estava desacordada… Sobre uma gigantesca mão metálica. Dezessete anos após o acidente, a pequena Rose transformou-se na Dra. Franklin, ph.D em física e principal responsável pelas pesquisas em torno do artefato que encontrara em sua  infância. Essa é a premissa de “Gigantes Adormecidos”, romance de estreia de Sylvain Neuvel e o primeiro da série “Os Arquivos Têmis”, que serão publicados aqui no Brasil pela editora Suma de Letras.

De origem desconhecida, a estranha mão desafia estudos científicos, históricos e antropológicos, já que nenhum recurso ou tecnologia humana seria capaz de construir algo como aquilo, além disso, não há nenhum registro do metal utilizado em sua construção, o que sugere a milenar escassez do material ou que sua proveniência seja extraterrestre. A chave para compreender sua função pode estar nos indecifráveis caracteres entalhados nos painéis da caixa na qual a mão repousava no momento de sua descoberta. Cética, Rose percebe que seu conhecimento científico está prestes a mudar a cada passo que dá em direção a essa nova tecnologia.

À medida em que outras partes do corpo começam a surgir em variadas regiões do planeta, uma equipe é recrutada para vasculhar os confins da Terra e resgatá-las, na esperança de juntar o que imaginam ser um gigantesco corpo mecânico. A partir daí surge um dilema: uma vez montado, ele será uma ferramenta para promover a paz mundial ou uma arma de destruição em massa?  Somente os avanços da pesquisa podem responder esta questão, no entanto, uma coisa é certa: a descoberta pode revolucionar a ciência e pôr à prova inúmeras religiões.

“Todas as grandes religiões vão precisar se reformular diante dessa revelação. Independente do deus, ele não pode ser apenas dos humanos. Ele ou ela precisa ser um deus de todo o Universo. Céu, inferno, nirvana, seja o que for, tudo isso precisa ser repensado, reformatado.” – p. 207.

A princípio, a pesquisa é monitorada pela Agência de Segurança Nacional e pelo Exército dos Estados Unidos, porém, em certo momento, tudo foge do controle e não demora muito para que outros países demonstrem interesse em fazer parte da iniciativa… O que outrora foi uma descoberta científica transforma-se em alvo de uma disputa político-militar capaz de desencadear eventos de proporções inimagináveis para a raça humana.

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Com uma narrativa imprevisível, curiosa e intrigante, o autor nos apresenta protagonistas complexos e cheios de particularidades, como Kara Resnik, Subtenente e piloto de helicópteros do exército, uma jovem impulsiva, determinada e corajosa, mas de difícil relacionamento, por conta de seu passado amargurado. Outro personagem que vai ganhando um papel fundamental é Vincent Couture, um curioso e inventivo linguista que, inicialmente, junta-se à Kara e Rose para decifrar os caracteres alienígenas. Sua presença acaba despertando o ciúme de Ryan Mitchell, parceiro militar de Kara, que nutre sentimentos por ela, fazendo crescer uma tensão que pode pôr em risco os rumos da missão. Sem dúvidas, o personagem mais intrigante é aquele por trás de todo o projeto, a quem cada membro deve se reportar, um homem sarcástico, manipulador e estrategista. É ele o encarregado em analisar cada componente do projeto, desde as pesquisas, verbas, contratos… Sempre agindo de maneira ambígua e induzindo os personagens aos seus limites. Nada se sabe sobre ele, exceto que sua sabedoria é muito maior do que ele demonstra.

Além do desdobramento em torno das consequências causadas por cada avanço, o enredo aprofunda a personalidade dos personagens e seus relacionamentos entre si e em relação às experiências pelas quais estão sujeitados através de relatórios, diários e entrevistas, e é sob essa perspectiva que os capítulos são intercalados. O únicos pontos negativos em relação à escrita são alguns diálogos infantis fora de contexto, algo que destoou de todo o resto, e a oscilação entre momentos surpreendentes e outros entediantes.

Um dos aspectos mais envolventes é a maneira como os depoimentos e matérias jornalísticas divulgadas ao longo da leitura evidenciam como o governo age nos bastidores para atingir seus interesses, criando álibis por meio da mídia para ocultar informações cruciais frente ao público, um trabalho recorrente envolvendo inúmeras conspirações.

Ao ler a sinopse logo me veio à mente tramas relacionadas a “Transformers” ou aos “Power Rangers” e seus Megazords, mas a ação permaneceu escondida, talvez esteja guardada para as vindouras sequências, e é claro que algumas perguntas ficaram sem respostas de maneira proposital, já que “Gigantes Adormecidos” é o primeiro da série.

O mais interessante é que Neuvel conseguiu dar uma perspectiva muito realista ao enredo, transformando o que poderia ser mais uma ficção imaginativa em uma realidade não muito distante dos progressos tecnológicos atuais e daqueles que podem surgir daqui a alguns anos.  Ao longo da leitura nos perguntamos quem seriam os criadores da armadura: uma raça extinta, alienígenas ou deuses antigos? Quantos deles existem? Qual seu propósito? Construída em cima de referências mitológicas e científicas, a trama deixa em aberto que está por vir algo muito maior e mais enigmático do que o mundo está preparado para conhecer. A intenção do autor foi provocar hipóteses que só nos deixam mais curiosos e ansiosos para os próximos lançamentos…

 

 

 

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